Voltei a Évora...
Não por necessidade, mas por saudades!
Não saudades minhas.
A minha filha tinha saudades de Évora...
Insistentemente o ia fazendo saber, e cobrando a nossa constante indisponibilidade para o satisfazer.
Como é que era possível, uma criança agora com 8 anos ter saudades de um lugar que foi "obrigada" a visitar para me acompanhar nos tratamentos de radioterapia?
Como era possível, ter-se saudades de um hospital?
Ter saudades de ficar 4, 5 ou ás vezes até mais horas, enfiada numa sala de espera, tendo por companhia mulheres carecas, mulheres mutiladas, mulheres sofridas?
Mas tinha... e muitas!
Um ano e um mês depois de ter deixado para trás um local que foi meu durante 30 dias, decidi "matar as saudades".
A viagem foi mais leve.
A paisagem mais colorida.
A placa branca com a palavra "Évora" escrita a tinta preta fez sair um grito de exclamação do banco de trás do carro: "A sério mãe, estamos em Évora?"
Respondi afirmativamente.
"Não acredito, vou poder voltar a andar no baloiço do jardim!"
O comentário fez-me pensar que as crianças é que têm razão ao não quererem crescer...
A terem a capacidade de olhar para a vida pelo lado mais simples, e feliz!
Perguntei onde queria ir almoçar.
A resposta foi certa e sabida: "Nos Bombeiros!"
A cafetaria dos Bombeiros Voluntários de Évora foi, durante muito tempo, o nosso conforto do estômago e da alma!
Após a escolha do restaurante, decidi que iríamos fazer tudo como fizemos durante 30 longos dias, um ano antes.
Estacionei o carro na mesma rua onde sempre ficou...
O percurso até aos Bombeiros foi o mesmo, com uma diferença, não foi interrompido a meio com um desvio para o Hospital!
O Hospital! O hospital esse, acompanhou-nos durante grande parte do caminho.
Não fui capaz de o encarar...
Tudo à sua volta transpira radiações, mulheres fragilizadas, dores, medos...
Desta vez não entrei, mas terei que o fazer um dia, quando a queimadura no peito deixar de arder! No dia que o fizer, poderei avançar!
Depois do almoço, novo destino: o jardim do parque infantil!
"Finalmente vou poder voltar a andar no baloiço!"
Sentada no banco do jardim, observei-a e deliciei-me em ver como estava feliz!
Aquele jardim, paragem obrigatória entre a saída do hospital e o regresso a casa, enchia-nos o coração de paz e tranquilidade!
Voltou a fazê-lo.
Desta vez aproveitá-mos para conhecer um pouco mais!
Aproveitámos para criar novas memórias, novas saudades.
Desta vez saudades de cura e de amor!
No regresso a casa, um enorme sorriso enchia o banco de trás do carro!
"Mãe obrigada, já não tenho saudades de Évora!"
Voltaremos a Évora sim, sempre que tivermos saudades!

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