quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

O tempo não pára!



29 de janeiro de 2014.

Foi em puro estado de choque, debaixo de um enorme céu estrelado, de um luar frio e tremendamente extasiante, que regressei a casa, depois da consulta que mudaria, para sempre, o rumo da minha vida.  

A curta distância que separava o hospital de minha casa, foi feita em silêncio emocional.

Sozinha no carro, o vidro do pára-brisas transformou-se de imediato, numa enorme tela de cinema na qual, eram projetadas à velocidade da luz, imagens de vidas, amores e receios!

No rádio, a música completava a banda sonora do filme da dura realidade!

A letra, que no início provocou em mim dor, muita dor... Dor da perda, dor da derrota, aos poucos foi-se tornando hino de guerra!

Guerra contra algo que eu não permitiria que me derrubasse!
Guerra contra algo que eu não pedi!
Guerra contra um inimigo que se escondia dentro de mim e com o qual eu teria de lutar com todas as minhas forças.

E desta forma, cantando alto e de forma louca, prometi:

"Vou pedir ao tempo que me dê mais tempo
Para olhar para ti
De agora em diante, não serei distante
Eu vou estar aqui"

Chorei, chorei muito, mas a partir dessa noite fria de inverno, e após percorridos 20 quilómetros de memórias, decidi não chorar mais.

Estava decidida a ser a autora do guião da minha vida!

Porque, O TEMPO NÃO PÁRA!



terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Cancro ponto e vírgula!


Hoje, enquanto preparava o jantar, passava na televisão uma reportagem sobre a exposição patente na Fundação Calouste Gulbenkian intitulada: "Cancro Ponto e Vírgula" a qual, curiosamente, também hoje partilhei no Facebook!

A minha filha brincava na sala, entretida num mundo de fantasia tão próprio da sua idade.

Vinda sem se anunciar, entrou na cozinha e colocou a mão sobre o meu braço e, de uma forma avassaladora disse: "Mãe, afinal não és só tu que tens cancro!"

Pela primeira vez desde que me foi diagnosticado o carcinoma, senti medo!

Medo da resposta que teria que dar à minha filha!
Medo de não saber tranquilizá-la!
Medo de não conseguir protegê-la!

Durante todo o processo de tratamento, que passou por duas intervenções cirúrgicas e trinta sessões de radioterapia, a palavra "cancro" sempre foi mantida longe das nossas vidas, não por uma questão de negação, mas porque a carga negativa que ela transporta em si poderia tornar-se nociva, e corroer tudo à sua volta.

Mas hoje, pela primeira vez, a palavra foi dita pela boca inocente da minha filha!

Não neguei, já não podia afastá-la da amarga realidade.
Expliquei o que ela sempre soube mas de uma forma mais verdadeira, e não tão "cor-de-rosa" como nós pais, teimamos em contar às crianças com medo delas não entenderem ou de fazê-las sofrer.

Apenas uma dúvida pairava no seu pensamento: "Mãe, e porque é que o cancro é ponto e vírgula?"

"Porque não tem que ser o fim! Porque não tem que ser um ponto final. Porque temos que acreditar, sempre, que o cancro pode ter cura!" Disse eu, ajoelhando-me perante uma menina de olhar doce e terno que me abraçou e disse ao ouvido: "Fofa, o teu cancro é um cancro ponto e vírgula!"

E da mesma forma que chegou, desapareceu, para de novo mergulhar na sua brincadeira de príncipes e princesas.

E eu, de joelhos, agradeci!


terça-feira, 20 de janeiro de 2015

A gravidez que não se deseja!



Faz um ano que descobri que estava "grávida"!
Tal como na primeira gravidez, esta também não tinha sido planeada.

Apenas uma diferença a distinguia da primeira: o meu "bebé" não estava a ser gerado na barriga mas sim, no meu peito, mais precisamente, na minha mama direita!

Tal como na primeira vez, o choque foi imediato! 
Medo, incerteza, dúvida, foram sentimentos que pairaram na minha cabeça durante algum tempo, nas duas ocasiões.

O momento em que, à 7 anos, a ginecologista através da ecografia me disse que esperava um bebé, foi perversamente igual ao momento em que o senologista me disse que no meu peito estava a se desenvolver um nódulo!

A minha filha, que tanto pedia um irmão, tinha que ser preparada para a possibilidade deste "irmão" poder vir-lhe a roubar a mãe!

Não podia permitir que tal acontece-se!
A minha princesa merecia o melhor de mim...

Agarrando-me com toda a força, fé, confiança e, acima de tudo num Credo Superior, recebi o resultado que qualquer mulher mais teme: Carcinoma Ductal Invasivo no quadrante superior da mama direita!

Ao contrário da minha primeira gravidez, esta não era desejada! Não resultava de um ato de amor entre um homem e uma mulher. Era apenas fruto de uma vontade própria, egoísta e devastadora de umas células degenerativas!

Abortei! É o que melhor resume a cirurgia realizada de excisão.
A perda de algo que nos rouba parte de nós!

Qualquer mulher quando passa pela experiência de ter um filho, transforma-se, fica mais forte, capaz de tudo por um amor incondicional jamais imaginado atingir.

Pois eu, tive a sorte de ter sido mãe, duma menina que me tornou numa guerreira, numa lutadora, numa mãe-coragem capaz de tudo em nome desse amor; e de uma neoplasia que me definiu o importante, o essencial e a razão do meu viver!

Trouxe-me o saber aceitar, o saber agradecer e principalmente permitiu que eu me encontrasse!

Ainda tenho um longo caminho a percorrer mas, agora sim, sinto que estou no meu caminho...

Sorrindo para a Vida!