
"Acho que estarás mal aproveitada, tens asas para voar sozinha!"
Disse-me uma amiga no meio de uma conversa.
Esta observação deixou-me pensativa...
Verdade é, que muitas vezes só fazemos o que conhecemos, o que sabemos que vai dar certo.
Tememos o risco, a incerteza!
Fechadas nos nossos próprios conceitos e preconceitos, não arriscamos sair da nossa zona de conforto!
Nunca damos o "golpe de asa"...
Um pássaro enquanto voa e muda abruptamente de rumo, sem aviso prévio, sem preparação, arrisca um golpe de asa! E, ao sabor do vento, ao sabor da vida, arrisca!
Nós somos incapazes de arriscar golpes de asa. Aceitar percorrer caminhos menos conhecidos...
Arriscar.
Arriscar.
Fazer o que a nossa intuição nos diz.
Aprender a perceber onde é que a nossa intuição nos leva.
Cada um de nós tem capacidades intuitivas extraordinárias.
Preferimos por vezes, de modo mais cómodo, escolher acreditar que não somos capazes, e que a intuição não é boa coisa.
Bloqueamos.
Bloqueamos a capacidade de andar antes do tempo e de cuidar para que tudo possa acontecer como tem de acontecer, pelo simples facto de termos intuído.
Bloqueamos a capacidade de andar antes do tempo e de cuidar para que tudo possa acontecer como tem de acontecer, pelo simples facto de termos intuído.
«Eu não sou capaz.» «Eu não mereço.» «Isto é bom demais para mim.» são frases que deveriam deixar de fazer parte do nosso vocabulário!
Mudança.
Mudança de caminho, mudança de vida. Mudança de estruturas e mudança de vista.
Quanto mais mudamos, mais o nosso olhar se vai abrindo para o infinito, para as novas dimensões e com isso conseguiremos, num ato de proeza e coragem, dar-mos o nosso "Golpe de Asa"!
Quase
Um pouco mais de sol - eu era brasa.
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...
Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...
Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!
De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...
Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar....
Ânsias que foram mas que não fixei...
Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...
Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...
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Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao
menos eu permanecesse aquém...
Mário de Sá Carneiro
19 Maio 1890 // 26 Abril 1916
Poeta/Contista/Ficcionista
Poeta/Contista/Ficcionista
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