domingo, 9 de outubro de 2022

Orfãos de Filhos


Que os filhos não são nossos estamos mais do que convencidas!
A nós apenas nos cabe ser colo, abrigo e leme, preparando-os para o Mundo.
Dar-lhes asas, ensinar a voar e ajuda-los a deixarem o ninho...

E ás Mães? Quem as prepara para perderem as asas?

Em cada filho que se desapega, é uma mãe que fica orfã.
Orfã de cuidar, de proteger e amparar.
Orfã de um amor que só ela tem e sabe dar, insubstituível!

E orfãs vão envelhecendo, perdidas em memórias, por vezes em lares que não os seus, rodeadas de outras mães orfãs, até se tornarem também elas... memórias!

E quem as ensina?

A desapegar, deixar ir, largar?
Como se pode pedir a uma mãe que perca a afeição, que se desinteresse, que seja indiferente?
Como se aprende a deixar de ser Mãe?

A todas as Mães que, orfãs de filhos, são incapazes de deixar de ser Mães!

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

ESTADO DE DÚVIDA

Voltei!
Precisei de um tempo... Espaço... Vida!
Ao fim de três anos, desci ao fundo do poço!
Deixei-me vencer!
Ninguém percebeu... Normal!

"A ficha caiu" e com ela caíram algumas certezas, amizades, verdades. 
Precisei de reiniciar, de voltar a ser eu mesma!
Estou no caminho, caminhando por trilhos nem sempre direitos ou planos.
Mas lá chegarei...

Encontrei um anjo que me tem ajudado a reerguer, a colocar as coisas no lugar, arrumar assuntos do passado, a limpar memórias!

E é tão bom conseguir aliviar as dores, a libertar os pesos que carregamos por anos e anos, os fretes que teimamos em fazer para "ficarmos bem na fotografia".

Sou uma sobrevivente, mas não sou imortal!

Tenho aprendido que preciso chorar, chorar a morte, chorar a perda, chorar os sobreviventes como eu, no momento!

E hoje chorei...


Até que sejamos diagnosticadas como "curadas", temos que aprender a conviver com o pavor e o medo da reincidência e, apesar dos exames de controle nos darem pequenas vitórias, e algum conforto e segurança, a verdade é que, a cabeça ainda pensa que um dia o corpo nos vai trair novamente com um diagnóstico positivo.

O cancro de mama e todo o processo que envolve o seu tratamento representam um trauma psicológico para a maioria das mulheres, visto que, de um momento para o outro somos obrigadas a conviver com a perda da vida que julgávamos ser normal, c
om as alterações corporais, as limitações físicas e nos vemos obrigadas a replanear os sonhos.

É importante percebermos e aceitarmos que todos esses medos, anseios e novas rotinas muitas vezes nos evidenciam a importância de termos apoio psicológico para lidarmos e aceitarmos melhor a condição em que nos encontramos.

E o meu anjo chegou através da Psicoterapia, que me tem ajudado a recuperar,  e aos poucos vou voltando a ter vontade de “abraçar o mundo com a pernas”!

Deram-nos uma segunda chance de vivermos, mas se nos descuidarmos, será que teremos uma terceira?

Tu não tiveste, Zé Pedro!



ESTADO DE DÚVIDA

Quem sabe o que fazer quando tudo corre mal?
Ninguém sabe o que dizer

Quem sabe resistir quando se tira a razão?
Ninguém sabe desmontar
Este cerco que se aperta

Alguém quer este modo de vida?
Alguém quer este estado de dúvida?

Tu e eu
Tu e eu
Tu e eu
Tu e eu

Há por aí quem queira lutar? (sou eu)
Alguém que queira realmente mudar (estou cá)
Alguém aí esta pronto para avançar? (sou eu)
Então que ninguém se deixe ficar

E quando tu olhares para o lado
Será que tens alguém?
Alguém que sinta e que queira
Tanto mais que tu e eu

(Ninguém)
Alguém quer este modo de vida? (ninguém)
Alguém quer este estado de dúvida? (ninguém)
Alguém quer este modo de vida? (ninguém)
Alguém quer este estado de dúvida? (ninguém)

Há por aí quem queira lutar? (estou cá)
Alguém que queira realmente mudar (sou eu)
Alguém aí está pronto para avançar? (estou cá)
Então que ninguém se deixe ficar (ninguém)
Há por aí quem queira lutar? (estou cá)
Alguém que queira realmente mudar (sou eu)
Todos juntos podemos avançar
então seremos muito mais que tu e eu

sábado, 23 de julho de 2016

O “M” que faltava!


Desde o meu nascimento que fiquei, inevitavelmente, ligada emocionalmente ao mês de maio, tornando-se cada vez mais um mês de grande importância no percurso da minha vida.

É um mês cheio de emoções, cheio de memórias, cheio de M's.

Maio tem M:
De Mãe (ao quadrado). A mãe do ser e a mãe do ter!
De Maria. Da fé e do amor incondicional!
De Mulher. Das conquistas femininas e das conquistas do coração!
De Mama. Da dor e da coragem!
De Madrinha. De descobrir um amor doce.
De Missão. Da resiliência e da dádiva.

Mas o maio também contém nele outros M’s:
O M de José. Do eterno avó dos afetos.
O M de Daniela. Da força e do amor infinito.

E ainda esconde:
O M de Medo.
O M da Morte.

O medo de voltar tudo.
O medo da reincidência.
O medo do cancro.
O medo de não conseguir ser forte.
O medo de perder o sorriso e a fé.
O medo quando chega a hora dos exames de rotina.
Da incerteza dos resultados.
Da dor que volta à cicatriz que tende a ficar mais discreta.

Depois de dois meses de espera, finalmente ontem foi dia de saber resultados.
De ter a vida presa ao ecrã de um computador e às palavras de um médico.
Libertar-me da angústia, da ansiedade e do medo…

E não podiam ter terminado da melhor maneira!

Para além de “os resultados dos exames estão todos bons” ganhei um novo “M” para o meu maio…

Ganhei o “M” de MILAGRE!

Milagre por ter sabido que o meu caso, foi alvo de estudo num congresso da especialidade, por ter sido, até à data, único da espécie!

Não pude conter o riso… O meu cancro era raro e especial!

E imaginar que há dois anos, se tivesse optado por não aceitar retirar o "inofensivo nódulo", este ato podia, inquestionavelmente, ter ditado a minha sentença e mudado para sempre o rumo da minha vida!
Podia ter sido fatal!

Não podia acreditar, mas podia agradecer...
Agradecer o milagre que a Vida me deu!
De ser feliz e ser grata pelo meu novo “M”.

O “M” que faltava!

terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Dezembro

                                  

Dezembro!...

O mês que tantos desejam e que a mim tanto me inquieta!
Mais um dezembro...
Dois!
Dois anos de renovação e gratidão.
A vida oferece-nos em diversos momentos, motivos para agradecer!
Praticar a gratidão é um desafio diário, ajuda-nos a ultrapassar situações que por vezes teimam em querer fugir ao nosso controlo.

Chico Xavier diz:"a dor, o desafio, seja ele qual for, não vem para esmagar, mas para induzir a crescer, e está no homem escolher ser abismo ou ponte."

Por vezes somos postos à prova e de alguma forma somos obrigados a escolher: sermos a ponte ou sermos o abismo!

O cancro permitiu-me escolher ser ponte... A ponte para o melhor de mim!
Ser ponte e resiliência...
Resiliência de ser capaz de lidar com os problemas, vencer obstáculos, não ceder às pressões...

Mas haverá sempre dezembro!
Dezembro da angústia de novos exames, da incógnita dos resultados, da incerteza do destino!

Dezembro do abismo!

Mas, na minha resiliência, eu escolhi ser ponte!
Escolhi ser a ponte para o meu crescimento pessoal e espiritual, escolhi não ter medo, escolhi aceitar e agradecer.

Na minha resiliência... Eu escolhi ser janeiro!

quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Meu destino na vida é maior


Adoro a sensação inexplicável de me apaixonar por músicas da mesma forma que nos apaixonamos no amor.

A surpresa do inesperado, 
A sensação de conexão,
A vontade constante de ouvir, de sentir, de ser, e estar...

Quando uma música consegue dizer tanto em tão pouco, e nos preenche a alma que se torne quase impossível fugir-lhe sem que nos prenda de forma pura e nos encha de uma enorme vontade de viver e ser feliz, da qual só nos resta... a paixão!


É a melodia que nos arrebata de tal forma que nos deixa viciados, e se entranha na nossa pele qual perfume de fragrância doce!

É a letra que nos despe com tal subtileza que nos expõe sem tabus.
É o refrão que nos encoraja a sermos cada vez mais Mulheres e de acreditar.
E é a coragem de avançar, sem medo de errar!
E é a certeza de que o melhor de nós está para chegar!



Hoje a semente que torna na terra
E que se esconde no escuro que encerra
Amanha nascerá uma flor.
Ainda que a esperança da luz seja escassa
A chuva que molha e passa 
Vai trazer numa luta amor.

Também eu estou à espera da luz
Deixou-me aqui onde a sombra seduz.
Também eu estou à espera de mim
Algo me diz que a tormenta passará.

REFRÃO:
É preciso perder para depois se ganhar
E mesmo sem ver, acreditar.
É a vida que segue e não espera pela gente
Cada passo que demos em frente
Caminhando sem medo de errar.
Creio que a noite sempre se tornará dia
E o brilho que o sol irradia
Há-de sempre me iluminar.

Quebro as algemas neste meu lamento,
Se renasço a cada momento,
Meu destino na vida é maior.

Também eu vou em busca da luz
Saio daqui onde a sombra seduz.
Também eu estou à espera de mim
Algo me diz que a tormenta passará.

REFRÃO:
É preciso perder para depois se ganhar
E mesmo sem ver, acreditar.
É a vida que segue e não espera pela gente
Cada passo que demos em frente
Caminhando sem medo de errar.
Creio que a noite sempre se tornará dia
E o brilho que o sol irradia
Há-de sempre me iluminar.

Sei que o melhor de mim está pr'a chegar!
Sei que o melhor de mim está por chegar.
Sei que o melhor de mim está pr'a chegar





sexta-feira, 30 de outubro de 2015

Das saudades...


Voltei a Évora...

Não por necessidade, mas por saudades!
Não saudades minhas.

A minha filha tinha saudades de Évora... 
Insistentemente o ia fazendo saber, e cobrando a nossa constante indisponibilidade para o satisfazer.

Como é que era possível, uma criança agora com 8 anos ter saudades de um lugar que foi "obrigada" a visitar para me acompanhar nos tratamentos de radioterapia?

Como era possível, ter-se saudades de um hospital?
Ter saudades de ficar 4, 5 ou ás vezes até mais horas, enfiada numa sala de espera, tendo por companhia mulheres carecas, mulheres mutiladas, mulheres sofridas?

Mas tinha... e muitas!

Um ano e um mês depois de ter deixado para trás um local que foi meu durante 30 dias, decidi "matar as saudades".

A viagem foi mais leve.
A paisagem mais colorida.

A placa branca com a palavra "Évora" escrita a tinta preta fez sair um grito de exclamação do banco de trás do carro: "A sério mãe, estamos em Évora?"

Respondi afirmativamente.
"Não acredito, vou poder voltar a andar no baloiço do jardim!"

O comentário fez-me pensar que as crianças é que têm razão ao não quererem crescer...
A terem a capacidade de olhar para a vida pelo lado mais simples, e feliz!

Perguntei onde queria ir almoçar.
A resposta foi certa e sabida: "Nos Bombeiros!"

A cafetaria dos Bombeiros Voluntários de Évora foi, durante muito tempo, o nosso conforto do estômago e da alma!

Após a escolha do restaurante, decidi que iríamos fazer tudo como fizemos durante 30 longos dias, um ano antes.

Estacionei o carro na mesma rua onde sempre ficou...

O percurso até aos Bombeiros foi o mesmo, com uma diferença, não foi interrompido a meio com um desvio para o Hospital!

O Hospital! O hospital esse, acompanhou-nos durante grande parte do caminho.
Não fui capaz de o encarar...
Tudo à sua volta transpira radiações, mulheres fragilizadas, dores, medos...

Desta vez não entrei, mas terei que o fazer um dia, quando a queimadura no peito deixar de arder! No dia que o fizer, poderei avançar!

Depois do almoço, novo destino: o jardim do parque infantil!
"Finalmente vou poder voltar a andar no baloiço!"

Sentada no banco do jardim, observei-a e deliciei-me em ver como estava feliz!

Aquele jardim, paragem obrigatória entre a saída do hospital e o regresso a casa, enchia-nos o coração de paz e tranquilidade!
Voltou a fazê-lo.

Desta vez aproveitá-mos para conhecer um pouco mais!
Aproveitámos para criar novas memórias, novas saudades.
Desta vez saudades de cura e de amor!

No regresso a casa, um enorme sorriso enchia o banco de trás do carro!
"Mãe obrigada, já não tenho saudades de Évora!"

Voltaremos a Évora sim, sempre que tivermos saudades!



sexta-feira, 11 de setembro de 2015

O Melhor


"Vai buscar o melhor que há em ti.
Esses olhos, que falam com a expressão da alma.
Vai buscar.
Deixa saltar cá para fora a Deusa (o Deus) que és.
Todos vocês são Deuses. Porque é que tentam escapar disso?
Porque é que tentam esconder, manipular, mentir, seduzir, alcançar o que não é vosso?
Vai buscar o melhor que há em ti.
Tens uma essência. Tens uma luz. Tens uma alma.
Vibrar por aí vai fazer-te brilhar. Brilhar ainda mais.
Vai buscar a tua lua, a tua vida inconsciente.
Trá-la cá para fora, olha-a nos olhos e prescinde dela.
Só aí vou conseguir tocar o teu coração. E este, ao sentir o meu toque, vai reagir. Vai abrir-se, vai sorrir, vai iluminar-se de alegria.
Mas tens de ter consciência e escolher ir buscar o melhor de ti.
Deverá ser uma escolha diária, hora a hora, minuto a minuto, instante a instante.
A cada circunstância, a cada rejeição, julgamento ou culpa, escolhe o melhor de ti.
Chora o que tens de chorar, mas escolhe-te a ti.
E vais ver que à conta de isto acontecer, a vida muda de frequência e as coisas começam a sorrir outra vez.


JESUS"


Excertos de "O Livro da Luz" de Alexandra Solnado

domingo, 19 de abril de 2015

Eu fico com você, esperança!


"O sonho comanda a vida"...

E quem é que comanda o sonho!?
Eu digo que cabe a nós comandá-lo!

Mais do que ter a capacidade de sonhar, a verdadeira felicidade está na capacidade de transformar os sonhos em projetos de vida realizados!

Mas nem sempre isso é possível.
Há que ter a capacidade de esperar... de amadurecer... de sentir... de crer!
Tudo na vida tem o seu tempo para acontecer, para estar em sintonia e equilíbrio, para que faça sentido!

Eu tinha um sonho! Um sonho chamado voluntariado!
Sonhei-o durante muitos anos mas só agora se tornou realidade...

A vida deu-me a provação de passar pela experiência do cancro, de ser vítima, de sentir a dor, de saber ter fé, acreditar e sorrir, para estar preparada para o desafio!

Não podia ajudar se não tivesse sofrido, se não "falasse a mesma linguagem"!

O sofrimento é o nosso elo de ligação e a cura a meta a atingir!

Só agora fez sentido!
Só agora é que fui merecedora de tamanha dádiva!

E o sonho nasceu...

Chama-se MISSÃO CORAGEM!
Da qual muito me orgulho e a qual espero que possa vir a ajudar muitas mulheres, e homens, a acreditar, a sorrir e a terem Esperança num final feliz!

E como na vida não devemos andar sozinhos, espero que esta seja, também, a missão coragem de muitos! 


Boa semana e, não deixem de comandar os sonhos da vossa vida!


Esperança (Aliados)

Enquanto ela estiver aqui
Ainda haverá o amor

Com ela eu estou feliz, com ela eu enfrento a dor

Não adianta fugir, não adianta chorar
E se um dia ela sumir, nada mais irá sobrar

Sonhar, viver, e todo dia agradecer
E rezar pra você ser a última a morrer

Podem tentar me atingir
Podem me mandar pra onde for
Enquanto ela estiver aqui a vida ainda tem valor

Sonhar, viver, e todo dia agradecer
E rezar pra você ser a última a morrer

Uma gota de você vale mais que tudo
Quando a solução não pode resolver
Eu fico com você, esperança
Eu fico com você

Sonhar, viver, e todo dia agradecer
E rezar pra você ser a última a morrer
Sonhar, viver, e todo dia agradecer
E rezar pra você ser a última a morrer, esperança
Esperança



quinta-feira, 19 de março de 2015

Golpe de asa


"Acho que estarás mal aproveitada, tens asas para voar sozinha!"

Disse-me uma amiga no meio de uma conversa.

Esta observação deixou-me pensativa...

Verdade é, que muitas vezes só fazemos o que conhecemos, o que sabemos que vai dar certo.
Tememos o risco, a incerteza!
Fechadas nos nossos próprios conceitos e preconceitos, não arriscamos sair da nossa zona de conforto!

Nunca damos o "golpe de asa"...

Um pássaro enquanto voa e muda abruptamente de rumo, sem aviso prévio, sem preparação, arrisca um golpe de asa! E, ao sabor do vento, ao sabor da vida, arrisca!

Nós somos incapazes de arriscar golpes de asa. Aceitar percorrer caminhos menos conhecidos...

Arriscar.

Fazer o que a nossa intuição nos diz.
Aprender a perceber onde é que a nossa intuição nos leva.
Cada um de nós tem capacidades intuitivas extraordinárias.
Preferimos por vezes, de modo mais cómodo, escolher acreditar que não somos capazes, e que a intuição não é boa coisa. 


Bloqueamos.

Bloqueamos a capacidade de andar antes do tempo e de cuidar para que tudo possa acontecer como tem de acontecer, pelo simples facto de termos intuído.
«Eu não sou capaz.» «Eu não mereço.» «Isto é bom demais para mim.» são frases que deveriam deixar de fazer parte do nosso vocabulário!

Mudança.

Mudança de caminho, mudança de vida. Mudança de estruturas e mudança de vista. 
Quanto mais mudamos, mais o nosso olhar se vai abrindo para o infinito, para as novas dimensões e com isso conseguiremos, num ato de proeza e coragem, dar-mos o nosso "Golpe de Asa"!


Quase

Um pouco mais de sol - eu era brasa.
Um pouco mais de azul - eu era além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

Assombro ou paz? Em vão... Tudo esvaído
Num baixo mar enganador de espuma;
E o grande sonho despertado em bruma,
O grande sonho - ó dor! - quase vivido...

Quase o amor, quase o triunfo e a chama,
Quase o princípio e o fim - quase a expansão...
Mas na minh'alma tudo se derrama...
Entanto nada foi só ilusão!

De tudo houve um começo... e tudo errou...
- Ai a dor de ser-quase, dor sem fim... -
Eu falhei-me entre os mais, falhei em mim,
Asa que se elançou mas não voou...

Momentos de alma que desbaratei...
Templos aonde nunca pus um altar...
Rios que perdi sem os levar ao mar....
Ânsias que foram mas que não fixei...

Se me vagueio, encontro só indícios...
Ogivas para o sol - vejo-as cerradas;
E mãos de herói, sem fé, acobardadas,
Puseram grades sobre os precipícios...

Num ímpeto difuso de quebranto,
Tudo encetei e nada possuí...
Hoje, de mim, só resta o desencanto
Das coisas que beijei mas não vivi...

.........................................
.........................................

Um pouco mais de sol - e fora brasa,
Um pouco mais de azul - e fora além.
Para atingir, faltou-me um golpe de asa...
Se ao menos eu permanecesse aquém...

                            Mário de Sá Carneiro
                                     19 Maio 1890 // 26 Abril 1916 
                                        Poeta/Contista/Ficcionista

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

A cicatriz feita tatuagem

Aos 30 anos decidi ser irreverente! Coloquei um piercing no umbigo...

Aos 40 anos decidi ser ainda mais irreverente! Quis fazer uma tatuagem...
Queria marcar no corpo a minha história de amor, celebrando o dia em que fui mãe! Não a cheguei a fazer.

Fi-la aos 41 anos, sem a desejar. Uma tatuagem que marcará para sempre o meu corpo e que me lembrará para sempre o dia em que não fui mãe...

Uma marca que apesar de discreta e "perfeita" me obriga a lembrar diáriamente que um dia, o meu corpo pode me trair novamente e, de uma hora para outra, me obrigar a conviver com a perda da vida que julgamos ser normal.

O meu seio ficou diferente, mais pequeno, mas as minhas metas, os meus sonhos e os meus projetos ficaram agora muito maiores!

Não nego todos os medos, anseios e dúvidas que me perseguem nos momentos de maior fragilidade, mas, agarrando-me à fé e às terapias que fui descobrindo e que me ajudam a fortalecer o meu Eu, e não o meu Ego, recupero...

Recupero e vem de súbito uma vontade de não perder um minuto sequer da vida e “agarrar o touro pelos cornos”.

O ser humano tem uma capacidade incrível de se adaptar a novas situações.

Tive uma segunda chance de viver!

Estou viva, e com uma cicactriz feita tatuagem!